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A Jamaica Brasileira

A Jamaica Brasileira é o nome dado a um documentário sobre os maiores consumidores da música jamaicana no Brasil, os maranhenses. Um pouco da história das Radiolas que, sem querer, surgiram em São Luis de forma inconsciente nos memos moldes dos soundsystem jamaicanos. Relatos curiosos e interessantes de como o reggay influênciou a cultura do norte do país.

Video disponibilizado no Youtube em três partes:

V.A. – You & Me Inna Maranhão Style

Hoje estava “fuçando” arquivos perdidos no meu computador e eis que encontro uma coletânea You&Me perdida em uma pasta chamada “Download”. É uma ótima coletânea “postada” em 2008 com músicas “típicas” do Maranhão. Digo típicas porque é o estilo de Reggae que o pessoal mais curte por lá, são mais de 30 anos de Reggae e Radiolas, não é atoa que lá é considerado a Jamaica Brasileira. Fantástico, merece ser baixado!

Detalhe para a faixa de abertura que foi “modificada” e ficou super divertido, “Soldering” do Stanly Beckford (gosto bastante desse cara), “Wicked Babylon” do Rebel Lion, banda cearense e música super agradável, “Whoopin Mama” do Carl Dobson, matadora!!! Na verdade a coletânea inteira é ótima, com vários grandes nomes: John Holt, The Pioneers, Delroy Wilson etc. Nem tem como falar de todas, faça o download e aproveite! =D

via You & Me on a Jamboree! by Greg Fernandes on 10/18/08

Apenas tente imaginar: uma ilha negra, no meio do Atlântico, com reggae de domingo à domingo. Não, não é a Jamaica. Bom, me deixe contar uma historinha. Já é sabido que o reggae chegou ao Sudeste, de início, via grandes gravadoras que tinham alguns de seus tentáculos pelo Brasil. Já em 1980, quando mal se sabia o que era reggae em terras nossas, veio um sujeito chamado Bob Marley para eventos “diplomáticos” de promoção do selo alemão Ariola, dono da Island. Em seguida, vieram os pesquisadores que, tendo por base, principalmente, a Europa, trouxeram vários discos do que tocava por lá: o rub-a-dub. Até hoje há uma tradição fortissima do rub-a-dub em São Paulo: Don Carlos, Black Uhuru, Ini Kamoze, Twinkle Brothers, são a inspiração pra muitas das bandas e dj´s paulistas. (Hoje, porém, há um movimento significativo e promissor do rocksteady e early reggae, da qual a moçada desse blog faz parte).

O fato é que no Maranhão a coisa aconteceu diferente. Na década de 70 pipocavam por São Luís diversas casas de “som mecânico”, as discotecas, que tocavam, além da disco music, lambada e outros ritmos latinos. Como os lançamentos desses ritmos eram escassos por aqui, e a necessidade eminente de novidades, devido a concorrência, a única saída foi o contrabando via Cayena e Belém do Pará. Vieram caixas e caixas de discos caribenhos e assim, despretenciosamente, se iniciou uma história de mais de 30 anos com os LP´s jamaicanos que vieram na leva. No começo, não se sabia bem o que era aquilo, mas o publico dançou e aprovou. Por isso, o Norte/Nordeste do Brasil talvez seja o único lugar do mundo onde se dança reggae à dois, que, convenhamos, é bem melhor. As “radiolas”, (à grosso modo, o sound system brasileiro) se multiplicaram. Em 30 anos, mais de 400 delas se espalharam só no Maranhão, junto, é claro, com centenas de dj´s. Houve um tempo em que cada rua de certos bairros de São Luis tinha sua radiola, em muitos casos com os lendários paredões de som gigantescos. E o óbvio resultado: a concorrência monstruosa entre elas, que fez acontecer episódios tragicômicos, como a sabotagem de festas rivais, jogando-se um fio de cobre na fiação elétrica, por exemplo. Mas, o lado bom disso, é que muita gente foi obrigada pesquisar aquilo que havia de mais raro, aquilo que a concorrencia não tocava. Músicas que as gravadoras britânicas e mesmo os jamaicanos rejeitaram até hoje são sucessos absolutos. O cd “You & Me Inna Maranhão Style” tenta adentrar nesse universo das festas de radiola, tão vasto quanto desconhecido por muitos, trazendo algumas das centenas de músicas que fazem a história do reggae ludovicense. Entre risos e lágrimas, cada uma, em algum momento, fez milhares de pessoas enlouquecerem, fez com que comentassem no outro dia, com que esperassem ansiosamente a próxima festa, que são raras, como “Josephine”, que chegou a ser comprada por 200 reais de um Dj para ser vendida em cd´s e fitas k-7. O difícil mesmo é tentar fazer um resumo dessa história de décadas ainda inacabada, mesmo com a decadência evidente das radiolas que, ainda devido a concorrência, passaram a fazer produções proprias com cantores amadores em ritmo digital. O que é certo, é que nesse tempo todo, o reggae no maranhão tornou-se riquissimo, dono de acervos espetaculares, e fez com que a boa música saisse da esfera de entretenimento de uma classe média letrada para ser a diversão de gente simples. Aí está um pequenino pedaço de tudo isso.

Espero que gostem.

Por Canuto Lion*

  1. Abertura – Jackie Brown – Wet Baggy
  2. The Starlights – Eiling in the Barn Yard (Version)
  3. Stanley Beckford – Soldering
  4. Rebel Lion – Wicked Babylon
  5. The Eagles – Rasta Pickney
  6. The Pioneers – A Hundred Pounds of Clay
  7. Derrick Morgan – Send A Little Rain
  8. Brenton King – Josephine
  9. Wong Ping – Chinese Brush
  10. Hanley Banton – Dat
  11. Turnell McComarck and the Cordels – Three Card Man
  12. Ethiopians – Knowlegde is Power
  13. Jackie Brown – Living In Sweet Jamaica
  14. Carl Dobson – Whoopin Mama
  15. Shorty The President – Rockers Tamborine
  16. Sidney Rogers – Another Lonely Night
  17. Keble Drummond – Your Pretty Face
  18. John Holt – Tree in The Meadow
  19. Delroy Wilson – I’ve Been in Love
  20. The Chosen Few – Chain Gang
  21. Flora Adams – Fire Fire
  22. Dell Williams – Searching For Your Love
  23. Gregory Isaacs – Heartaches
  24. Trevor Thompson – Just Out Of Reach
  25. Larry Marshall – Brand New Baby
  26. Elpedo Burke – Madgie
  27. Euda Jarret – You Hurt Me (BONUS TRACK)

DOWNLOAD

sobre sound system

Queria colocar algo sobre os famosos Sound System’s jamaicanos, para as pessoas entenderem do que se trata. Encontrei um texto bem esclarecedor que sintentiza o que é e quais são aqueles envolvidos, definindo seus papéis de forma bem “didática”.

O texto foi escrito por Tarcisio Ferreira que escreve para o Central Reggae e colo aqui na integra ;). Espero que seja esclarecedor.

Este ensaio tenta capturar e retransmitir a essência do que chamamos de Radiola no Maranhão ou os Sound Systems de Reggae como são conhecidos na Jamaica. Apresentamos um escrito para todos aqueles que buscam conhecimentos e compreensão desta cultura em contínua evolução.

O fenômeno dos Sounds Systems de Reggae (também conhecidos como Sounds) é algo que há intrigado a muitos observadores na Jamaica e em todo o mundo há décadas. Em nenhum outro lugar do mundo poderia haver sido criada uma cultura que se mova tão rápido como os Sound Systems. Começaram como um movimento “underground” na indústria do Reggae jamaicano, mas os Sound Systems ascenderam até chegar a ser uma parte integrada na cultura do Reggae. De fato, as raízes do Dancehall Reggae podem ser traçadas a partir da formação dos Sounds Systems locais e nacionais conhecidos (alguns há mais de 30 anos).

* O que compõe uma Radiola/Sound System? 

As pessoas normalmente se surpreendem pela quantidade de apoio e componentes que se integram dentro de uma Radiola. Ainda que não haja uma composição preestabelecida, uma Radiola ideal é formada por: DJ’s, no Maranhão, na Jamaica teremos o Selector (Selektah), ou MC (Micro Chatter) que é o DJ, o dono ou administrador (Magnata ou Radioleiro), os técnicos, apoio móvel e de segurança, equipamentos, os seguidores da Radiola… e finalmente os não menos importante, os discos e os dubplates na Jamaica e em quase todo o mundo. No Maranhão temos os disquetes de MD gravados direto do vinil ou de CDs.

É importante notar ainda que não todas as Radiolas tenham todos estes componentes e alguns deles são imprescindíveis; por exemplo, uma Radiola sem DJ’s ou Selektah ou sem discos é como um televisor sem eletricidade, não funciona. Também é importante dar-se conta de que alguns papéis podem ser compartidos; assim, por exemplo, o Selektah pode ser ao mesmo tempo o DJ/MC e o proprietário da Radiola (o caso de Natty Nayfson em São Luis). Geralmente distinguimos três tipos de Radiolas: as caseiras com suas baianinhas, as amadoras normalmente atuantes em pequenas festas e as profissionais (Black Power, Natty Nayfson, Itamaraty, Estrela do Som, Rebel Lion,.etc.,), normalmente com 4 paredôes e com três equipes diferentes, a exempla da Radiola Itamaraty com os DJ’s Roberthanco, Bacana e Jean Holt que comandam as três Itamaraty em festas distintas em diversos lugares de São Luis e do Maranhão. 

* O Selector/Selektah

Provavelmente, o Selektah é um dos papeis mais importantes em uma Radiola no estilo Jamaicano. O imenso conhecimento e habilidade que se necessita para esta função (ao fim e ao cabo se queres ser bem considerado) e a dificuldade desta posição é muita vezes subestimada. Um bom selektah tem que conhecer centenas de discos e CD’s (incluindo os nomes dos artistas e sua localização na caixa) dentro de sua cabeça.

Por os discos em uma ordem e de maneira que apeteça as pessoas que os está escutando requer um alto nível de diligencia. Um selektah tem que ser hábil para fazer uma transição discreta de um disco ao seguinte (mixar). Estas habilidades que a menudo demoram anos em adquirir-se, mas chega a fazer com tanto o estilo que o encadeamento das músicas muitas vezes passa despercebidos. Um mal selektah, por outro lado, pode ser facilmente descoberto, e uma multidão descontente normalmente não duvidará em fazer manifesta sua desaprovação. 

* O DJ ou Mic Chatter (MC) 

O DJ ou MC é a mão direita do Selektah e vice-versa. Ele é o responsável de introduzir os discos que tocam, de animar o público (criando vibração), de motivar-la a que participem cantando as canções populares e de pedir que o disco seja parado e posto outra vez imediatamente (também conhecido como “forward” ou “wheel” na Jamaica e no Maranhão é a famoso “toca de novo”). As obrigações do DJ/MC na festa são maiores que as de um MC em espetáculo ao vivo – voltando a por imediatamente os discos coincidindo com os pedidos do público. A multidão – a Massa regueira, aqui no maranhão vai normalmente ao móvel da Radiola e pede sua música; Já na Jamaica e Europa ele faz o “forward” ou “Wheel” mediante gritos, chiados, cantos, assobios, levantando seus isqueiros e mantendo-os acendidos no ar, dando golpes nas paredes, acendendo fogos, usando buzinas, ou inclusive simulando uma pistola com suas mãos no ar (chamados gun salutes).

O DJ/MC, além disso, deve anunciar os próximos eventos em que estará tocando, fazer piadas, tentar acalmar a multidão em caso de brigas e em alguns casos, fazer comentários com conteúdo político.

Em um Sound Clash (um grande encontro de DJ’s,) o papel de um DJ é, todavia, mais crucial. Aqui é o responsável de provocar verbalmente a seus oponentes (de outras Radiolas/Sounds) insultando-os (a isto se chama toasting), ou explicando piadas desconcertantes que possam ser verdade ou não (também chamadas drawing cards). Há alguns anos deixou-se de se fazer isso no Maranhão, antes os DJ’s diziam “vou passar por cima da seqüência de fulano” e faziam outras provocações de modo a fazer que a cada pedra o público ficasse ao lado de um ou de outro pela a melhor seqüência de pedras. Isso criava um clima saudável de disputa que animava bastantes as festas e servia de comentário durante a semana entre os fãs de Radiolas ou de DJ’s. Infelizmente esse costume foi abandonado pelos DJ’s do Maranhão. 

* Outros membros

Além do Selektah e o DJ/MC há muitas outras pessoas atrás da cena assegurando se de que a som funcione com a devida qualidade. O proprietário ou magnata (Radioleiro), que está a cargo de designar as tarefas de todos os outros membros. Esta pessoa é responsável também de buscar os contratos e registrar as datas para as atuações da Radiola/Sound. Os técnicos têm o trabalho de montar os componentes elétricos e assegurar-se de que todo soe perfeitamente. Se surge algum problema com o som antes, durante ou depois do evento, é trabalho do técnico concertá-lo. Os encarregados do translado (The moving staff ou “box bwoys” na Jamaica, aqui são os “carregadores de caixas” ou “Carregadores de Radiola”) se encarregam de transportar e colocar todo equipamento na posição adequada. 

* Os Fãs ou Sound Followers 

Os seguidores ou fãs sãos os que fazem verdadeiramente a festa. Estes seguem a Radiola/Sound da mesma maneira que uma congregação segue uma igreja em particular. Os seguidores da Radiola/Sound assistem aos eventos onde esta atua, colecionam fitas cassetes, mixtapes, discos, CD’s e apóiam sua Radiola preferida durante um Sound Clash. Ainda que muitos fãs sejam seguidores ocasionais de uma Radiola, há outros que levam isto muito a sério. Estas crews ou massives (Massa Regueira), apóiam a Radiola de tal maneira que muitas vezes seu nome chega a ser sinônimo da Radiola em se mesmo (Pinto da Itamaraty, Luis Black Power, Luisinho Black System, Natty Nayfson, etc). Ter reconhecimento no microfone (bigged up), nos eventos em que a Radiola está fazendo sua apresentação, entrada para tais eventos, uma camisa, popularidade e respeito, um sentimento de orgulho regueiro quando sua radiola ganha um Clash (disputa ou encontro), ou simplesmente um sentimento de identificação com algo, são alguns dos muitos motivos de seu apoio.

Na Jamaica as duas Radiolas/Sounds mais conhecidas e disputadas são as Stone Love e a Love Stone só para citar as mais famosas.

Esperamos que com estas sucintas informações os leitores possam ter uma dimensão do significado das Radiolas/Sounds aqui e na Jamaica, e ver como temos características semelhantes apesar de estarmos distantes milhares de quilômetros um do outro.

fonte/texto original:
http://www2.uol.com.br/tribodejah/centralreggae/curiosidades_radiolas.htm


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